Levantamento aponta oito contratos com a G3 Empreendimento entre diferentes órgãos estaduais; Governo de Sergipe e empresa afirmam que as contratações seguiram a legislação e negam favorecimento
O Governo de Sergipe firmou oito contratos que, somados, ultrapassam R$ 70 milhões com a G3 Empreendimento, empresa controlada pela empresária Fernanda Fontes Santana, filha do ex-deputado estadual Manuel Marcos (PSD), político ligado à base do governador Fábio Mitidieri (PSD). Os contratos envolvem diferentes órgãos da administração estadual e incluem serviços relacionados à terceirização de mão de obra e disponibilização de equipamentos.
O caso ganhou repercussão após levantamento publicado pela Folha de S.Paulo apontar a relação familiar entre a proprietária da empresa e o ex-parlamentar. A existência desse vínculo, entretanto, não representa por si só prova de irregularidade ou favorecimento. O Governo de Sergipe sustenta que os procedimentos foram realizados de acordo com a legislação e com os princípios administrativos aplicáveis às contratações públicas.
A G3 Empreendimento também rejeitou a existência de irregularidades. A empresa declarou que suas contratações seguem a legislação, que os valores praticados estão alinhados ao mercado e que possui capacidade técnica, financeira e estrutural para executar os serviços contratados. A companhia informou ainda que mantém relações comerciais tanto com órgãos públicos quanto com empresas privadas.
Contratos ultrapassam R$ 70 milhões
O levantamento aponta oito contratos celebrados com diferentes órgãos ligados à administração estadual. Um dos primeiros acordos destacados foi firmado em abril de 2024 com a Casa Civil de Sergipe, no valor aproximado de R$ 5,3 milhões. A contratação ocorreu em caráter emergencial e, por essa modalidade, sem um procedimento licitatório convencional.
Posteriormente, em 2025, a G3 venceu um pregão eletrônico da Casa Civil com valor de aproximadamente R$ 54 milhões. De acordo com o Governo de Sergipe, o processo foi realizado conforme a legislação vigente e envolve a disponibilização de mão de obra em regime de dedicação exclusiva, além de equipamentos e materiais destinados a diferentes estruturas da administração estadual.
Além desses contratos, registros mencionados no levantamento apontam relações contratuais da empresa com fundações e outras entidades estaduais. Entre elas estão a Fundação Renascer, a Fundação Sergipana de Comunicação, a Fundação de Cultura e Arte Aperipê e a Agência de Desenvolvimento de Sergipe. A soma dos contratos identificados supera a marca de R$ 70 milhões.
Primeiro contrato ocorreu em caráter emergencial
A trajetória societária da G3 também aparece no levantamento. Fernanda Fontes Santana adquiriu participação de 50% na empresa em dezembro de 2023 e passou a figurar como única sócia em abril de 2024. Foi nesse mesmo mês que ocorreu a contratação emergencial de aproximadamente R$ 5,3 milhões pela Casa Civil.
Naquele período, Manuel Marcos, pai da empresária, exercia mandato de deputado estadual. Ele havia assumido uma cadeira na Assembleia Legislativa de Sergipe depois que Jorginho Araújo (PSD) se licenciou do Legislativo para comandar a Casa Civil do governo estadual, pasta responsável pela contratação emergencial mencionada na reportagem.
A relação política e a sequência temporal das contratações estão entre os elementos que levaram o caso à repercussão pública. Isso, contudo, não permite concluir automaticamente que tenha existido interferência política na escolha da empresa. Uma eventual comprovação de favorecimento ou ilegalidade dependeria de análise dos procedimentos administrativos e, quando cabível, da atuação dos órgãos de fiscalização e controle.
Empresa ampliou áreas de atuação
Outro aspecto apontado na apuração diz respeito às atividades empresariais da G3. Quando Fernanda ingressou na sociedade, a empresa possuía registro relacionado ao comércio atacadista de alimentos, incluindo produtos refrigerados e congelados.
Posteriormente, a companhia passou a atuar também em outras áreas. Entre as atividades mencionadas estão locação de móveis, engenharia, terraplanagem e monitoramento eletrônico de segurança, além de serviços relacionados aos contratos firmados com órgãos públicos.
A diversificação das atividades de uma empresa é permitida desde que sejam observadas as exigências legais e administrativas correspondentes. No caso de contratos públicos, a capacidade técnica e operacional para executar os serviços contratados deve ser avaliada conforme as regras aplicáveis a cada procedimento.
O que diz o Governo de Sergipe?
O Governo de Sergipe afirma que as contratações da G3 foram realizadas de acordo com os procedimentos previstos na legislação. A administração estadual declarou que sua atuação segue os princípios da legalidade, transparência e publicidade e rejeitou a interpretação de que os contratos tenham resultado de favorecimento político.
Em relação ao contrato de aproximadamente R$ 54 milhões, o governo destacou que houve pregão eletrônico. Segundo a gestão estadual, o objeto envolve serviços de mão de obra em regime de dedicação exclusiva, acompanhados da disponibilização de equipamentos e materiais para estruturas estaduais.
A manifestação do governo é um elemento importante para contextualizar o caso porque a existência de uma relação familiar entre uma empresária contratada e um integrante da base política estadual não comprova, isoladamente, que as regras da contratação tenham sido descumpridas. A análise sobre eventual irregularidade precisa considerar os processos administrativos, os critérios de seleção, os preços praticados e a execução dos serviços.
O que diz a G3 Empreendimento?
A G3 também afirma que atua dentro da legalidade. A empresa declarou possuir capacidade técnica, financeira e estrutural para cumprir os contratos e sustenta que os preços utilizados estão de acordo com os praticados pelo mercado.
A companhia informou ainda que sua carteira não está limitada ao Governo de Sergipe, mantendo contratos com outros órgãos públicos e também com clientes privados. A empresa nega ter recebido tratamento privilegiado em razão de relações políticas.
Fernanda Fontes Santana, proprietária da companhia, indicou que a manifestação oficial da G3 representaria sua posição sobre os questionamentos apresentados. Dessa maneira, a defesa central da empresa é que os contratos resultam de sua capacidade empresarial e foram realizados dentro das normas aplicáveis.
Relação política aumenta repercussão do caso
A dimensão política da pauta decorre principalmente do vínculo familiar da proprietária da G3 com Manuel Marcos. O ex-deputado pertence ao PSD, mesma legenda do governador Fábio Mitidieri, e esteve ligado à base política estadual.
Manuel Marcos, por sua vez, negou participação nas contratações da empresa. Também contestou a existência de proximidade política pessoal com Jorginho Araújo e afirmou que a relação de amizade do ex-secretário seria com o marido de Fernanda.
O ponto central para a análise pública, portanto, é separar a existência dos contratos e das relações familiares — elementos documentáveis — de uma eventual acusação de favorecimento. Até as informações disponíveis na apuração, Governo de Sergipe e empresa negam irregularidades, e os contratos ou vínculos familiares, isoladamente, não demonstram que tenha ocorrido benefício indevido.
Por que o caso importa?
Contratos públicos de valores elevados naturalmente despertam interesse porque envolvem recursos administrados pelo Estado. Transparência sobre empresas contratadas, modalidades utilizadas, valores, objetos dos contratos e execução dos serviços permite que sociedade, imprensa e órgãos fiscalizadores acompanhem a aplicação do dinheiro público.
A atenção é maior quando existem relações familiares entre empresários contratados e integrantes ou antigos integrantes da base política de um governo. Isso não significa automaticamente que exista ilegalidade, mas aumenta a importância da transparência e da possibilidade de verificar objetivamente como cada contratação foi realizada.
No caso sergipano, documentos e registros públicos permitem confirmar parte das contratações citadas pela imprensa. A avaliação sobre eventual existência de irregularidades, entretanto, exige análise jurídica e administrativa mais ampla e não pode ser estabelecida apenas com base no parentesco da empresária.
Contexto e próximos passos
A repercussão do levantamento deve manter atenção sobre os processos administrativos relacionados aos contratos da G3 Empreendimento. Informações disponíveis em mecanismos oficiais de transparência podem permitir o acompanhamento de valores pagos, vigência dos contratos, aditivos e execução dos serviços.
Também caberá aos órgãos competentes avaliar os contratos caso sejam apresentados questionamentos formais ou identificados elementos que justifiquem fiscalização específica. Até o momento das informações utilizadas nesta matéria, não há base suficiente para afirmar que os contratos mencionados constituam, por si, prova de favorecimento político.
Para a cobertura jornalística, o caso exige acompanhamento das manifestações oficiais e de eventuais medidas adotadas posteriormente pelos órgãos de controle. Qualquer nova investigação, auditoria, decisão administrativa ou manifestação oficial deverá ser incorporada à cobertura para atualizar a situação.
Fonte principal clicável: Folha de S.Paulo — Governo de Sergipe assina contratos de mais de R$ 70 milhões com empresa ligada a político aliado