Sendo empresário do setor cemiterial e funerário, Tiago Schietti elucida que falar sobre o futuro do patrimônio familiar costuma ser um assunto incômodo para muitas pessoas, mas essa realidade vem mudando gradualmente. Essa transformação está diretamente relacionada a uma mudança mais ampla na forma como as famílias brasileiras enxergam o planejamento para momentos difíceis.
Durante muito tempo, o tema da sucessão patrimonial ficou restrito a discussões pontuais, geralmente motivadas por algum imprevisto ou perda repentina. Atualmente, no entanto, há uma percepção crescente de que conversar sobre herança e organização patrimonial em vida pode evitar conflitos e proteger não apenas bens, mas também relações familiares.
Continue lendo para entender por que o planejamento sucessório vem ganhando espaço nas conversas familiares e como essa prática se relaciona, de forma mais ampla, com o cuidado e o acolhimento que envolvem todo o ciclo de despedida.
Por que falar sobre herança ainda é um tabu em tantas famílias brasileiras?
A resistência em discutir herança e organização patrimonial tem raízes culturais profundas. Em muitas famílias, esse assunto é associado à proximidade da morte, o que gera desconforto e leva ao adiamento constante de conversas importantes. O resultado, muitas vezes, é uma sucessão marcada por desentendimentos, falta de informação e decisões tomadas sob pressão emocional.
Conforme explica Tiago Schietti, esse silêncio costuma agravar situações que já são naturalmente sensíveis. Quando uma família perde alguém sem que tenha existido qualquer tipo de planejamento prévio, além da dor da perda, surgem dúvidas práticas sobre como organizar bens, documentos e responsabilidades, em um momento em que a energia emocional disponível para isso costuma ser mínima.
O que entra em um bom planejamento sucessório?
O planejamento sucessório vai muito além da divisão formal de bens entre herdeiros. Ele envolve a organização de documentos, a clareza sobre desejos pessoais relacionados a despedidas e memorialização, além da definição de responsabilidades que ajudem a evitar dúvidas em momentos de fragilidade emocional.

Para Tiago Schietti, registrar preferências sobre questões simbólicas, como o tipo de cerimônia desejada ou a forma como a memória de uma pessoa deve ser preservada, também faz parte de um planejamento completo; principalmente porque esse tipo de informação, quando organizada com antecedência, evita que familiares precisem tomar decisões importantes sob pressão, sem saber ao certo o que a pessoa falecida desejaria.
Planejamento sucessório é só para famílias com grandes patrimônios?
Existe uma ideia bastante difundida de que esse tipo de organização só faz sentido para famílias com patrimônios extensos ou situações complexas, mas essa visão não reflete a realidade da maioria dos casos atendidos no dia a dia. Tiago Schietti ressalta que o valor do patrimônio é menos relevante do que o impacto emocional que a falta de organização pode gerar entre os familiares.
Mesmo em situações mais simples, decisões mal organizadas podem gerar desgastes evitáveis. Definir, por exemplo, quem ficará responsável por determinadas providências, ou deixar claro o que a pessoa desejava em relação à sua despedida, são cuidados que beneficiam famílias de qualquer realidade financeira, trazendo mais clareza emocional para todos os envolvidos.
Como o tema da sucessão se conecta ao cuidado com a memória familiar?
À medida que mais famílias brasileiras passam a discutir abertamente o planejamento sucessório, é natural que esse tema se aproxime de outras discussões relacionadas ao luto, como a memorialização e o acolhimento durante o processo de despedida. Organizar o patrimônio e organizar a memória de alguém são, no fundo, formas complementares de demonstrar cuidado com quem fica.
No fim, o empresário do setor cemiterial e funerário, Tiago Schietti, pontua que essa visão integrada tende a se fortalecer cada vez mais, especialmente diante de uma sociedade que busca formas mais conscientes e acolhedoras de lidar com a finitude. Conversas sobre herança, quando feitas com tranquilidade, podem se tornar momentos de aproximação familiar, em vez de fontes de tensão.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez