O produtor recebe em reais, mas o preço da soja, do milho e da maior parte dos grãos exportados pelo Brasil é definido em dólar. Essa combinação faz da cotação da moeda americana um dos fatores que mais influenciam a receita final de qualquer safra, ao lado de clima e produtividade. O empresário Wander Aguilera Almeida acompanha essa variável com a mesma atenção que dedica às cotações internacionais das mercadorias.
Nos últimos meses, o comportamento do dólar tem voltado ao centro das conversas entre produtores e compradores, já que oscilações relativamente pequenas na cotação chegam a mudar de forma significativa o valor recebido pela mesma carga. Confira a seguir como esse mecanismo funciona na prática.
Por que a cotação do dólar muda o preço pago ao produtor?
O preço internacional de grãos como soja e milho é formado em bolsas como a de Chicago, cotado em dólar, e depois convertido para reais no momento da negociação com o comprador. Wander Aguilera Almeida explica que essa conversão é o que torna o câmbio tão decisivo quanto o preço da mercadoria em si.
Se o preço em dólar permanece estável, mas a moeda americana se valoriza frente ao real, o produtor recebe mais reais pela mesma carga. O movimento inverso também vale: um real mais forte reduz o valor final recebido, mesmo sem qualquer mudança no preço internacional da mercadoria.

Essa relação explica por que produtores acompanham o câmbio quase diariamente durante a época de comercialização, já que uma variação de poucos centavos na cotação pode representar diferença relevante no valor total de uma carga volumosa.
Dólar alto é sempre bom para quem exporta grãos?
Nem sempre, apesar da lógica simplificada sugerir o contrário. Wander Aguilera Almeida reforça que boa parte dos insumos usados na produção agrícola, como fertilizantes e defensivos, também é cotada em dólar, o que encarece o custo de produzir justamente quando a moeda americana sobe.
Esse efeito duplo faz com que o ganho na receita de exportação seja parcialmente compensado pelo aumento no custo de produção, reduzindo a margem líquida que efetivamente chega ao bolso do produtor no fim da safra. Culturas como o milho, consumidas majoritariamente pelo mercado interno, sentem esse efeito de forma diferente da soja, já que o preço doméstico responde mais à demanda de ração e etanol do que à cotação cambial isoladamente.
Vale a pena travar o câmbio antes de fechar a venda?
Travar o câmbio significa garantir hoje a taxa de conversão que será usada em uma venda futura, protegendo o produtor de uma possível valorização do real entre o momento do contrato e o pagamento. Wander Aguilera Almeida trata essa proteção como ferramenta útil, mas que exige análise caso a caso.
Essa operação reduz a incerteza sobre o valor final que será recebido, o que ajuda no planejamento financeiro da propriedade, mas também significa abrir mão de um ganho adicional caso o dólar suba além do esperado depois da negociação fechada. Não existe resposta única sobre travar ou não o câmbio, já que a decisão depende do apetite ao risco de cada produtor e do quanto a operação específica depende dessa previsibilidade para fechar as contas da safra.
Como o câmbio se soma a outros fatores na hora de negociar?
O câmbio nunca decide sozinho o resultado de uma negociação de exportação, e tratá-lo de forma isolada é um erro comum entre quem está começando a exportar. O empresário Wander Aguilera Almeida destaca que essa variável precisa ser lida junto com estoques mundiais, clima e demanda dos principais compradores.
Um cenário de câmbio favorável, combinado a estoques apertados, tende a produzir os melhores momentos de venda, enquanto um dólar alto isolado, sem sustentação de demanda, pode não se traduzir em preço final tão vantajoso quanto parece à primeira vista. Diversificar o momento de venda, negociando parte da produção em diferentes janelas do ano, ajuda a reduzir a dependência de acertar o instante perfeito do câmbio, distribuindo o risco ao longo de toda a comercialização da safra.